O ex-presidente do São Paulo, Julio Casares, apresentou nesta quarta-feira (29) pedido de seu desligamento imediato do quadro de sócios do clube, renunciando assim de seu cargo no Conselho Deliberativo.
Sua saída do Tricolor chega no dia anterior de seu julgamento na Comissão de Ética, que iria analisar processo disciplinar contra Casares e poderia acarretar em sua expulsão definitiva do São Paulo. A informação inicial foi divulgada pelo UOL.
Ele repete o que já fez no início do ano, quando renunciou da presidência do clube durante processo de impeachment já aprovado pelo Conselho Deliberativo tricolor, que o afastaria do cargo. Sabendo que teria o mesmo destino nesta audiência de amanhã, cumpriu o mesmo roteiro de fuga.
Porém, apesar da solicitação de renúncia de Casares como sócio, o Artigo 38 do Estatuto do clube diz que “não será aceito pedido de demissão do Quadro Associativo, quando o Associado for objeto de procedimento administrativo disciplinar, até a conclusão de tal procedimento, bem como não será permitida sua inclusão como dependente de outro associado”. A ver se ele será julgado, ou não.
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O ex-presidente também enviou uma carta aberta ao portal com suas últimas palavras como membro do São Paulo. Leia na íntegra:
“Depois de muita reflexão, comunico meu desligamento do quadro associativo e das cadeiras nos Conselhos Deliberativo e Consultivo do São Paulo Futebol Clube.
É uma decisão difícil, tomada em respeito à minha saúde, à minha família e à necessidade de preservar a minha dignidade, sem jamais deixar de acreditar no futuro desta instituição.
Escrevo estas palavras com profunda tristeza. Não porque deixo de amar esta instituição — esse sentimento permanecerá para sempre –, mas porque me vejo obrigado a encerrar um ciclo que jamais imaginei que terminaria dessa forma.
Levarei comigo as lembranças dos anos dedicados a este clube, das pessoas que conheci, dos projetos que ajudei a construir e a convicção de que sempre procurei agir com honestidade, respeito e dedicação. Infelizmente, nos últimos tempos, esses valores deram lugar a um ambiente marcado por perseguições, ataques pessoais, desgaste emocional e uma política em que a disputa pelo poder passou a valer mais do que a justiça e o interesse do São Paulo Futebol Clube.
É inevitável que muitos me enxerguem como o vilão, acompanhando uma versão dos fatos cuidadosamente construída e continuamente alimentada. Mas afirmo, mais uma vez: essa versão não corresponde à verdade.
Existe uma reflexão que diz que “uma mentira repetida inúmeras vezes acaba sendo aceita como verdade por quem apenas a escuta”. É exatamente isso que tenho visto acontecer. A manipulação e a injustiça não atingem apenas a mim; elas alcançam cada torcedor, associado e pessoa de boa-fé que passou a acreditar em uma história construída para atender interesses muito distantes dos princípios que deveriam nortear esta instituição.
Respeito o direito de cada um formar sua opinião, mas peço apenas que nunca deixem de colocar os fatos acima das versões e a verdade acima de qualquer conveniência.
“Uma injustiça feita a um só é uma ameaça feita a todos.” Essa frase traduz o sentimento que levo comigo neste momento.
Assim como a Constituição assegura a todos o direito ao contraditório e à ampla defesa, lamento profundamente não ter tido, em diversos momentos, a oportunidade de exercer esse direito da forma como deveria. Não tive sequer acesso aos documentos que comprovam minha inocência, apesar de tê-los solicitado reiteradamente, inclusive recentemente, às vésperas de uma audiência já marcada. Documentos estes que permanecem arquivados no próprio clube. O direito de defesa é um dos pilares da democracia brasileira. No entanto, infelizmente, parece não fazer parte dos ritos da política do São Paulo Futebol Clube. Isso não é justiça; é um ajuste de contas com data marcada.
Vi minha honra ser questionada, minha família ser atingida e minha saúde ser colocada à prova. Nenhum cargo ou posição justifica o preço que pessoas inocentes acabam pagando quando a política perde seus limites.
Também considero importante recordar que nunca fiz da presidência um projeto pessoal. Tornei-me candidato em 2020 atendendo a uma vontade coletiva de sócios, conselheiros e diferentes grupos políticos que entendiam ser aquele o momento de construir um novo caminho para o São Paulo Futebol Clube. Antes disso, recusei os convites para disputar a presidência em 2014 e novamente em 2017. Aceitei esse desafio apenas quando compreendi que havia uma convergência em torno de um projeto para o clube, e foi com esse espírito de serviço que exerci cada dia do mandato.
Saio com dor no coração, mas com a tranquilidade de quem sabe que fez o melhor pelo São Paulo Futebol Clube. Tive a honra de participar de um dos períodos mais marcantes da história recente do clube: a conquista de três títulos, sendo um deles inédito na galeria tricolor, mesmo diante de uma grave crise financeira e enfrentando adversários de enorme poder econômico, como Palmeiras e Flamengo. Somam-se a isso as conquistas do bicampeonato da Copa do Brasil e da Copinha Sub-20.
Os títulos, a quebra de um longo jejum, os recordes de receita e de público no Morumbi, as obras realizadas no entorno do estádio e tantas outras conquistas permanecerão para sempre na minha memória. São fatos que reforçam a certeza de que todo o trabalho, dedicação e sacrifício valeram a pena.
Esses resultados são públicos, auditados e não deixam margem para reinterpretações de conveniência.
E aqui está o que mais me dói registrar: toda essa gestão — balanços, contratos, decisões financeiras e operacionais — foi aprovada, ano após ano, pelas mesmas instâncias que hoje tratam essas mesmas escolhas como prova de irregularidade. O que era prática de gestão validada dentro dos ritos corretos não pode, anos depois, transformar-se em acusação para atender a disputas internas de poder.
Da mesma forma, todos os reembolsos de despesas realizados durante minha gestão observaram rigorosamente os procedimentos internos do clube, com prestação integral de contas, documentação correspondente e aprovação pelos setores competentes. É importante registrar esse fato porque, mais uma vez, tenta-se transformar atos administrativos regulares em acusações convenientes.
Por isso, tomo a decisão de me desligar. Faço isso pela necessidade de preservar a minha paz, a minha saúde, a minha família e a minha dignidade, sem jamais deixar de acreditar no futuro do São Paulo Futebol Clube.
Tenho a convicção de que o tempo sempre cumpre o seu papel. Acredito que, quando os fatos forem analisados com serenidade e for possível comparar o antes e o depois, muitos enxergarão uma realidade diferente daquela que hoje prevalece. Talvez alguns tenham, inclusive, a grandeza de rever os seus julgamentos. Não guardo qualquer rancor por isso. Sigo com a consciência absolutamente tranquila de quem conhece a própria trajetória, os valores que sempre defendeu e as realizações que construiu. Quem deixa um legado não precisa se apegar a cargos, títulos ou carteirinhas. As verdadeiras conquistas permanecem registradas na história e na memória daqueles que acompanharam esse trabalho.
A partir de agora, concentrarei minhas energias na minha família, nos meus projetos pessoais e profissionais e, principalmente, na minha defesa. Tenho plena confiança na Justiça e acredito que ela é o único lugar onde os fatos prevalecem sobre versões, onde as provas têm mais força do que interesses circunstanciais e onde a verdade encontrará o seu devido espaço.
Agradeço profundamente a todos que caminharam ao meu lado, confiaram em mim e sempre me julgaram pelos meus atos, e não pelos boatos. Também agradeço pelos inúmeros momentos vividos nesta instituição, que permanecerão para sempre na minha memória.
Despeço-me dos cargos que ocupei, mas jamais do carinho, do respeito e do amor que continuarei tendo por esta instituição e por todos aqueles que verdadeiramente desejam o seu bem.
Saio de cabeça erguida, com a consciência em paz, a fé inabalável na Justiça e a certeza de que nenhuma versão construída é maior do que a verdade.
O São Paulo é sentimento que jamais acabará, como a torcida sempre bem cantou.
Que esta guerra política, que só nos trouxe divisões, mentiras e tanto sofrimento, encontre o seu fim. O São Paulo Futebol Clube merece voltar a ser maior do que qualquer disputa de poder.
Julio Casares
Desde sempre e para sempre, torcedor.
29 de julho de 2026”










