A passagem de Júlio Casares pela presidência do São Paulo será lembrada por três títulos conquistados, mas também por uma crise institucional que acabou por engolir os troféus. Depois de vencer Roberto Natel por 155 votos a 78 na eleição do mês anterior, ele assumiu o cargo em 1 de janeiro de 2021, sucedendo Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco.
O início foi marcado por um alívio esportivo: poucos meses depois, o clube voltou a ser campeão paulista, encerrando um jejum que durava desde 2005. O primeiro troféu deu a Casares capital político, reforçado em 2023 com a inédita conquista da Copa do Brasil. O São Paulo superou o Flamengo na decisão e levantou um título que faltava em sua galeria. No ano seguinte, veio a Supercopa Rei, com vitória sobre o Palmeiras, fechando a gestão com três taças. Além disso, o clube chegou a outras duas finais, no Paulista e na Copa Sul-Americana de 2022.
Fora de campo, porém, o cenário foi bem mais turbulento. Casares deveria ter permanecido no cargo apenas até dezembro de 2023, mas um golpe estatutário aprovado em setembro de 2022 lhe garantiu o direito à reeleição, que lhe era vetado. Meses antes, uma tentativa mais abrangente de alteração do estatuto, que incluía dispositivos impopulares como uma cláusula vista como mordaça a sócios, chegou a ser aprovada pelo Conselho Deliberativo, mas acabou derrubada em assembleia-geral.
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O Conselho, aliás, foi um pilar central da gestão. Com ampla maioria de situacionistas, o órgão respaldou Casares em votações sensíveis, inclusive na aprovação de balanços financeiros deficitários. Dos quatro primeiros anos de mandato, três terminaram no vermelho. O único resultado positivo, em 2022, só foi possível graças às vendas de Antony e Casemiro ao Manchester United, negociações das quais Casares não participou. Em 2024, o clube registrou o maior prejuízo de sua história: R$ 287,6 milhões.
Mesmo diante desse quadro, a gestão manteve gestos simbólicos de autopromoção. Em 2023, a praça de alimentação da área social do Morumbi recebeu o nome de Júlio Casares, decisão que agora é questionada pela oposição, após sua saída. Ao mesmo tempo, consolidou-se um padrão de comunicação marcado por intensa presença nas redes sociais em momentos de vitória e silêncio quase absoluto quando o clube enfrentava crises.
A renúncia, em meio a escândalos envolvendo pessoas próximas e investigações da Polícia Civil, acabou por dominar o foco da análise de sua gestão. Os títulos permanecem no currículo, mas dividem espaço com a deterioração financeira e institucional que marcou o fim de seu mandato e molda a avaliação de um período que terminou em ruptura.
FUTURO SOMBRIO PARA O EX-PRESIDENTE
A renúncia de Júlio Casares à presidência do São Paulo ocorre no contexto de um conjunto de investigações conduzidas pela Polícia Civil desde o final do ano passado. O agora ex-presidente é alvo de apurações relacionadas a saques em dinheiro vivo realizados nas contas do clube e a movimentações financeiras consideradas atípicas pelos órgãos de controle. O inquérito está sob responsabilidade do delegado Tiago Fernando Correia, da 3.ª Divisão de Investigações sobre Crimes contra a Administração e Combate à Lavagem de Dinheiro (Dicca).
O delegado afirma haver “consistentes indícios de que uma suposta associação criminosa estaria operacionalizando um sofisticado esquema de desvio de recursos e apropriação de valores”. A Polícia Civil conduz a investigação principal, enquanto o Ministério Público atua em duas frentes: uma voltada ao suposto esquema de desvio de verba e outra dedicada à apuração de gestão temerária, com foco na origem da dívida bilionária do São Paulo.
Os investigadores analisam 35 saques em dinheiro vivo realizados entre janeiro de 2021 e novembro de 2025, que somam onze milhões de reais. Os bancos responsáveis pelas contas classificaram as operações como “atípicas e incompatíveis com a prática de mercado para uma entidade deste porte”, destacando a dificuldade de assegurar a destinação dos valores. Os 33 últimos saques ocorreram com apoio de empresa de carros-fortes, método que, segundo a polícia, dificulta o rastreamento do dinheiro.
Paralelamente, os investigadores identificaram depósitos em contas ligadas à família do dirigente. Entre janeiro de 2023 e maio de 2025, houve depósitos de R$ 1,5 milhão em espécie em conta conjunta de Júlio e Mara Casares, ex-esposa do cartola. Ele ocupava cargo de diretora feminina, de cultura e de eventos do clube e se licenciou após acusações relacionadas a um esquema de venda ilegal de ingressos de camarotes. O Coaf também cita depósitos em dinheiro na conta de Deborah de Melo Casares, filha dos dois. Em um dos casos, em 22 de novembro de 2024, Mara depositou R$ 49,5 mil em espécie, valor abaixo do limite de notificação automática.
Os relatórios apontam ainda aportes em dinheiro vivo feitos por Mara em conta de uma empresa de que Deborah é sócia. O ponto central da apuração é verificar se existe ligação entre os saques nas contas do São Paulo e os depósitos nas contas dos dirigentes. Casares afirma que os valores têm lastro e que as acusações se baseiam em “versões frágeis”.










