Agora ‘mandachuvas’, Rui Costa e Muricy tentam conquistar a mesma confiança que elenco tinha com Belmonte

Sem Belmonte, Muricy Ramalho e Rui Costa serão os homens fortes do futebol (Foto: Reprodução/Instagram)

Demorou mais do que deveria, aconteceu antes do previsto: Carlos Belmonte e seus adjuntos deixaram o futebol profissional do São Paulo após o cenário de caos absoluto implantado depois da goleada sofrida para o Fluminense e, principalmente, as declarações bombásticas de Luiz Gustavo no Maracanã após o jogo.

O AVANTE MEU TRICOLOR já revelou que a saída de Belmonte do CT da Barra Funda estava definida há mais de um mês, mais precisamente desde que o presidente Julio Casares determinou a entrada de Marcio Carlomagno no cotidiano.

Mas fatores aconteceram para que a saída não fosse eminente. Por parte do ex-diretor de futebol, esperava-se que o mandatário tomasse as devidas rédeas. Por parte de Casares, além do óbvio fator político de não reforçar as fileiras oposicionistas com um nome antes fiel à sua gestão, havia o trato com os jogadores. Belmonte tinha excelente relação com o elenco. Muitos deles só confiavam no dirigente, relatado por alguns atletas ouvidos pela reportagem como “um cara de caráter e palavra”.

Via de regra, era Belmonte quem prometia os pagamentos de atrasados e abria conceções, como encurtar concentrações e permitir o acesso de familiares a treinos e ambientes internos do Morumbi em dias de jogos.

Pois bem, sem o ex-diretor, o protagonismo do departamento de futebol profissional ficará com Rui Costa e Muricy Ramalho, conforme o próprio Casares revelou na sexta-feira (28), em entrevista coletiva concedida após a oficialização da saída de Belmonte.

Costa, executivo de futebol, e Muricy, coordenador, possuem boa relação com os jogadores, mas não a cumplicidade que Belmonte ostentava.

No organograma vigente até então nos cinco anos da atual gestão, Costa literalmente apenas seguia as ordens de Belmonte e Casares. Apesar de suas ideias serem ouvidas rotineiramente, seu trabalho basicamente era o de conduzir negociações. Por isso, ele raramente falava em público, ao contrário do que aconteceu em outros clubes onde trabalhou.

Muricy, por sua vez, fazia avaliações técnicas de atletas, produzia relatórios de produtividade e era consultado sobre potenciais reforços ou quem deveria ser negociado. A maior parte do seu tempo é com os técnicos, com quem conversava sobre rendimento em partidas e ajudava na observação de adversários junto com Milton Cruz. Via de regra, o seu contato com os jogadores tinha um viés muito mais psicológico, digamos, já que sua sala era um verdadeiro divã para desabafos, principalmente de veteranos insatisfeitos com o banco de reservas.

Agora, com mais poderes, os dois terão função mais atuante no dia a dia para “cuidar do ambiente, ouvir os atletas e manter o vestiário equilibrado”. Trocando em miúdos, precisarão ter com os jogadores a mesma cumplicidade construída por Belmonte.

E a primeira missão não foi nada fácil. Coube a Costa e Muricy conversar com todo o elenco na manhã de sexta sobre as declarações de Luiz Gustavo.

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A entrevista ainda no gramado do Maracanã teve peso porque equilibrou autocrítica e cobrança. Ao admitir a “merda que fizemos hoje (quinta)”, ele delimitou a parcela dos jogadores, mas deixou claro que o problema não se encerra no campo: “É um clube que merece, de uma vez por todas, começar a ter uma direção e um plano claro do que queremos do início ao fim de uma temporada.” O volante também puxou a responsabilidade para todas as hierarquias do clube: “Está na hora de, no São Paulo, quem tem que colocar a cara começar a colocar, a assumir responsabilidades. Todo mundo tem responsabilidade. Assumir de cima para baixo, para que este clube possa realmente voltar a ser uma coisa grande no futebol.”

Casares foi surpreendido com o tom das críticas, já que a percepção era de que o relacionamento com o elenco era bom e de que clube e jogadores caminhavam em sintonia.

Na reunião, Costa e Muricy ouviram apoio de todo o grupo a Luiz Gustavo. Os dois ouviram reclamações, alinharam expectativas e reduziram ruídos.

As insatisfações elencadas pelos jogadores seriam várias, como os atrasos em direitos de imagem, num momento em que o clube fala em superávits e redução de dívida, a falta de posicionamentos claros sobre problemas internos, o alto número de lesões ao longo da temporada — considerado anormal pelo grupo — e até a mudança do local do jogo contra o Internacional, que teria sido comunicada aos atletas apenas pela imprensa (o duelo saiu do Morumbi para a Vila Belmiro, de novo).

Já em relação a Márcio Carlomagno, que há cerca de um mês e meio já vinha participando do dia a dia do CT da Barra Funda, seu papel no planejamento para a próxima temporada não parece ter mudado, pois já estaria envolvido nele com a esperança de ser “um dos pilares para manter as contas equilibradas” no ano que vem.

Carlomagno vai permanecer com suas funções no Morumbi e até mesmo em Cotia, como explicou Casares em sua coletiva, o que reforça a ideia de que Costa terá mais responsabilidades em relação ao futebol.

Na verdade, apesar de via de regra agora ser ele quem manda no futebol, o novo dirigente não possui lá grande admiração dos jogadores, que reclamaram dele ter cobrado resultados em alguns jogos sem sequer estar integrado ainda ao departamento.

Além disso, Carlomagno é visto por jogadores como um intruso, alguém que “puxou o tapete de Belmonte”. O ex-diretor, ciente do respeito do elenco e publicamente um amigo do seu ‘sucessor’, tratou antes de ir embora na sexta, ao se despedir do elenco, de fazer boa propaganda para acalmar um pouco o ambiente.

Nos bastidores, contudo, o clima entre Belmonte e Carlomagno, que começou bem, também passou a azedar, com discordância na decisão de tomadas.

Isso já havia culminado na decisão de Belmonte de não viajar mais com a delegação, o que contribuiu para os jogadores verem Carlomagno com mais desconfiança. Aliás, o próprio ex-diretor tratou de confirmar parte da história em entrevista ao portal ‘Fórum’.

“O Casares nomeou um interventor no futebol, o Carlomagno, então eu não vou me sujeitar ao ridículo de uma delegação com dois chefes. Já havia alguns jogos que eu não estava indo”, explicou. A derrota sofrida para o Fluminense, então, acelerou a decisão: “Eu esperava terminar a temporada, em respeito ao grupo de jogadores, com quem tenho ótima relação, mas a goleada foi a gota d’água.”

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