“Eu não sou ladrão e não faria isso de forma tão amadora”, diz Casares sobre acusações no São Paulo

Casares durante reunião com diretores em 2024 (Instagram)

O ex-presidente do São Paulo, Julio Casares, quebrou o silêncio em entrevista ao portal ‘UOL‘ após renunciar ao cargo no início do ano em meio a um processo de impeachment. Investigado pelo Ministério Público e pela Polícia Civil por supostos desvios financeiros e uso irregular do cartão corporativo do clube, Casares negou veementemente as acusações, afirmando não ser “ladrão” e justificando que “jamais agiria de forma amadora”.

“Eu tenho um limite porque existem alguns aspectos da defesa que devo preservar. Mas, em suma, eu quero dizer o seguinte: é tão absurdo, eu refuto absolutamente essas acusações, porque, primeiro, eu não sou ladrão. Segundo, eu não faria isso de forma tão amadora”, disse.

Movimentações financeiras e cartão corporativo

Questionado sobre os saques em espécie que totalizam R$ 11 milhões e os depósitos fracionados de R$ 1,5 milhão em sua conta pessoal, Casares eximiu-se de responsabilidade. Ele argumentou que o controle, saque e transporte de valores físicos — muitas vezes destinados ao pagamento de premiações (“bichos”) aos atletas — são atribuições exclusivas do departamento financeiro, e não da presidência.

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“Eu nunca assinei nenhum pedido de dinheiro e nenhuma saída de dinheiro. Então, é algo estranho. Isso tudo, no tempo certo, será colocado juridicamente. Eu jamais faria um negócio desse”, disse.

“Nós sabemos que tem pagamentos em espécie de bicho e como funciona isso. A diretoria de futebol conversa com as lideranças do futebol e estabelece um valor de prêmio que pode ser por uma fase de classificação ou por um jogo isolado. E ali é o diretor financeiro/contador que exerce essas funções. Esse pagamento é feito por eles. Eu não tenho o poder de levar, e nem faria isso, um envelope de dinheiro para distribuir”, continua.

Quanto ao uso do cartão de crédito corporativo para fins pessoais, o ex-mandatário admitiu a prática, justificando gastos com restaurantes sofisticados, charutos e bolsas de grife. No entanto, garantiu que os valores foram integralmente reembolsados ao clube com correção monetária. Segundo Casares, as despesas não chegaram à casa do R$ 1 milhão, totalizando pouco mais de R$ 400 mil ao longo de seus cinco anos de gestão (uma média de R$ 8 mil mensais).

“Eu fui um presidente que acompanhou o elenco 95% das vezes e tive alguns gastos particulares. Nós tínhamos no gabinete um controle de que algo que era particular estava sendo anotado. E esses valores eu restituí com correção. Então, eu não gastei R$ 1 milhão. Na verdade, nós gastamos pouco mais de R$ 400 mil. Isso colocado em cinco anos, que foi a minha gestão, daria mais ou menos um valor de R$ 8 mil por mês, numa média”, explicou.

O argumento de Casares é que tinha reuniões de relacionamento durante viagens do clube e usava o cartão corporativo nesses momentos – para comprar um presente a algum dirigente ou pagar um almoço de negócios, por exemplo. Entre os gastos estão refeições em restaurantes sofisticados, charutos e bolsas de grife.

“Depois que eu saí da covid, o meu cartão de crédito teve um problema e eu comecei a usar aquele com controle para que fizesse a reposição. E eu usei para lados pessoais. Quando você vai na charutaria, tem um lugar que você almoça, tem happy hour, etc, e você está lá. Então, eu usei. Mas todas essas despesas foram reembolsadas. E aí, eu quero saber como era a política de cartão de crédito nos anos anteriores.”

O caso dos camarotes e a “guerra política”

Sobre a acusação que minou sua força política — a comercialização “clandestina” de camarotes em dias de shows no Morumbi, cujos valores não entravam na contabilidade do clube —, Casares afirmou desconhecer as irregularidades. Ele alegou que o espaço era destinado estritamente a uso protocolar, abrigando jogadores não relacionados e parceiros institucionais.

Para o ex-dirigente, as denúncias e o impeachment são frutos de uma “guerra política fratricida” e de traições internas motivadas pela disputa por sua sucessão e pelo seu capital político.

“Ele é utilizado até para despachos, porque tem o gabinete da presidência, você desce uma escada, e aí tem um camarote com visão do campo. É utilizado por jogadores que vão no dia dos jogos e não são relacionados. Eles ficam ali, pois está próximo do vestiário. É um camarote que tem uma localização quase atrás do gol e não tem comercialização”, disse.

A resposta de Casares descreve o uso protocolar do camarote — por jogadores e para despachos da presidência. Ele reitera que não sabia desse uso para shows porque era um espaço que nunca havia sido comercializado dentro dos trâmites normais do clube e que nunca tinha entrado nas planilhas financeiras.

“Era uma cessão de um lounge para uma pessoa que era parceira poder usar. Os camarotes são utilizados assim: quando você tem um espaço que não está alugado, ou seja, você não tem uma reciprocidade de receita, ele é distribuído para inúmeros setores do São Paulo para relacionamento, relacionamento comercial, institucional”, explicou.

Casares ainda se diz vítima de uma “guerra política fratricida” no São Paulo. “A política traz uma sedução muito grande. Quem traiu sabe que traiu e quem foi traído sabe que foi traído. É claro que houve um processo de traição. Na verdade, o meu capital político era muito forte e já tinha uma luta para indicação para a sucessão. E eu acredito que, depois dessa questão do camarote, houve uma movimentação muito grande para que, com a saída do presidente, ficasse um espólio político para algumas pessoas. E esse espólio esfacelou-se, porque ele era muito pessoal”, afirmou.

Risco de expulsão do quadro social

O futuro de Julio Casares no São Paulo terá um novo capítulo nesta quinta-feira (30), quando ele passará por uma audiência na Comissão de Ética do clube. O colegiado produzirá um relatório sobre as acusações e o encaminhará ao Conselho Deliberativo. Caso o caso vá a julgamento, a expulsão de Casares do quadro associativo exigirá a aprovação de pelo menos dois terços dos conselheiros.

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