CAMAROTE GATE: Acusado pede acesso a laudo de áudio e Ética dá 5 dias para a defesa se manifestar

Mara Casares comemora título da Copa do Brasil em 2023 (Rubens Chiri/SPFC)

A Comissão de Ética do São Paulo deu cinco dias de prazo para que os dois ex-diretores do clube acusados de vender ilegalmente um camarote no Morumbi para o show da cantora colombiana Shakira, em março do ano passado, possam formular sua defesa sobre o fato.

Essa foi a decisão inicial tomada pelo órgão na noite desta segunda-feira (23), após a reunião que apura se houve ou não irregularidades que ferem o Estatuto do clube.

Um dos acusados, o ex-diretor da base tricolor, Douglas Schwartzmann, alegou que não ainda não havia tido acesso ao áudio original na íntegra e, principalmente, ao laudo emitido no decorrer do dia que comprovou a autenticidade da gravação (leia mais abaixo).

As informações foram reveladas inicialmente pelo portal ‘Tricolor na Web‘ e confirmadas ao AVANTE MEU TRICOLOR por fontes da cúpula são-paulina. A reportagem apurou que uma das táticas de Douglas em sua defesa seria questionar a veracidade da conversa gravada em que ele e Mara Casares aparecem negociando o tal camarote, o que seria ilegal. O caso também é investigado pela Polícia Civil e Ministério Público Estadual.

Depois que a alternativa ficou inviável por conta da perícia realizada de forma independente, a justificativa foi de que se precisava entender melhor o que o documento apontava. O Conselho de Ética achou o pedido plausível, afinal trata-se de uma prova nova no processo.

Importante ressaltar que a dúvida sobre a legalidade ou não da principal evidência que embasa o caso já havia sido esclarecida pela outra acusada.

Ex-diretora feminina, cultural e de eventos do clube social, Mara, que renunciou até ao cargo de conselheira, chorou em seu depoimento após confirmar que sim, as conversas vazadas pela imprensa eram sim legítimas.

Como parte dos procedimentos internos da Ética, o executivo de marketing do São Paulo, Eduardo Toni, e mais uma funcionária de seu departamento prestaram depoimento na condição de testemunha e confirmaram que o polêmico camarote é de uso restrito do clube e não poderia ser comercializado.

Paralelamente à investigação policial, um grupo de conselheiros do São Paulo encomendou uma perícia para avaliar a integridade do áudio que desencadeou o afastamento de Schwartzmann e Mara. E o laudo concluiu que o material é íntegro e não apresenta indícios de edição ou manipulação digital.

Foram produzidos dois pareceres técnicos. O primeiro, elaborado por uma perita fonoaudióloga, analisou a qualidade e a integridade acústica, levando em conta fatores como ruído, sobreposição de vozes e relação sinal/ruído. O segundo examinou metadados e realizou análise espectrográfica para verificar eventual adulteração digital.

Em ambos, o resultado indicou ausência de manipulação. Num dos trechos do laudo, a perita afirma que “o material está íntegro, sem sinais de qualquer tipo de manipulação”.

Na prática, com o prazo maior dado para a defesa da dupla, o parecer conclusivo do colegiado sobre o caso pode demorar até 30 dias para ser concluído. E as punições reservam mais burocracia interna. Por ser conselheiro vitalício, Douglas tem uma condição complexa. Nessa condição, sanções como censura ou suspensão são juridicamente viáveis dentro da esfera disciplinar, enquanto uma eventual perda de mandato dependeria de votação no Conselho Deliberativo.

Já Mara renunciou ao cargo de conselheira eleita em dezembro, em meio à repercussão do caso. Ainda assim, o processo pode prosseguir se a comissão entender que os fatos ocorreram quando ela exercia função estatutária. Nesse cenário, as penalidades poderiam ter efeito simbólico ou impacto sobre sua elegibilidade futura, a depender da interpretação do alcance das sanções previstas

Conforme o AVANTE MEU TRICOLOR apurou no decorrer deste domingo (22), a tendência é que seja exatamente isso que aconteça. Pressionados pela torcida e por sócios, que chegaram a realizar uma ‘pizzada’ dentro do clube como forma de protesto (relembre clicando aqui), até mesmo integrantes do órgão próximos da dupla andaram anunciando voto favorável pela expulsão.

Dos cinco integrantes do colegiado, três já se manifestaram publicamente por punição a Douglas e Mara.

A pressão de conselheiros oposicionistas do ex-presidente Julio Casares é pela punição máxima, ou seja, a expulsão do clube. Há temor de que a ‘pizza’, no caso, seja procedida na forma de penalizações leves.

“Estamos bem atentos. Não duvido ser algo que sirva apenas para ‘inglês ver’. É o dia D da moralidade são-paulina”, disse um conselheiro ouvido pela reportagem.

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OS ACUSADOS

Mara não faz mais parte da vida política são-paulina. Além do cargo de diretoria de eventos, abdicou também de sua cadeira no Conselho Deliberativo. Schwartzmann, ex-diretor da base, saiu do cargo administrativo, mas se manteve como conselheiro.

A ex-mulher do ex-presidente Julio Casares é quem mais vem enfrentando problemas com as investigações policiais. No final do mês passado, um caderno apreendido na casa de Rita de Cássia Adriana Prado, uma das protagonistas do escândalo, deu novos contornos às autoridades.

Embora o conteúdo esteja sob sigilo, investigadores apontam que as anotações ajudariam a detalhar o funcionamento do esquema e indicam que ao menos um camarote do São Paulo era desviado de forma sistemática.

A operação foi conduzida pela 3.ª Delegacia de Polícia de Investigações sobre Desmanches Delituosos (Dicca) e também teve como alvos Schwartzmann, ex-diretor-adjunto das categorias de base, e Mara Casares, ex-mulher do ex-presidente Júlio Casares e então diretora feminina, cultural e de eventos.

O caderno apreendido traria mais elementos sobre a engrenagem que sustentava o esquema, que pode ter duração maior do que se supunha inicialmente. “Os documentos arrecadados autorizam visualizar a gravidade dos fatos e a extensão dos fatos, inclusive a abrangência temporal, muito mais tempo que se imaginava”, afirmou o promotor José Reinaldo Carneiro Guimarães, ressaltando que a investigação ainda não está concluída.

Na residência de Mara, a polícia ainda apreendeu R$ 28 mil em espécie e um computador, além de documentos considerados importantes para o avanço do inquérito. Por meio de nota, o São Paulo declarou que “é vítima neste caso e vai contribuir com as autoridades na investigação”.

Paralelamente, o jornal ‘O Estado de S. Paulo‘ apurou que os negócios envolvendo Adriana e Mara no clube aconteceriam ao menos desde 2023.

Atualmente licenciada da diretoria, Mara teria atuado em parceria com Adriana na intermediação da venda de espaços e ingressos para jogos e shows no Morumbi, além de outros eventos do São Paulo.

A defesa de Mara afirma que ela mantém colaboração irrestrita com as autoridades e que a lisura de seus atos será comprovada.

A linha do tempo traçada por polícia e Ministério Público indica que a atuação conjunta das duas não se limitou ao camarote 3A no show da cantora Shakira, citado no áudio divulgado em dezembro.

Fontes ouvidas pelo periódico relatam a presença de Adriana como intermediária ainda em 2022. A própria Adriana reúne trocas de mensagens e e-mails com diretores do clube e teria procurado opositores de Casares para negociar o material.

O CASO

Mara foi flagrada junto de Schwartzmann em uma polêmica de repasse de um espaço no estádio tricolor para um show da cantora colombiana Shakira, em março. Ambos foram flagrados em gravações telefônicas feitas pela denunciante, que se sentiu lesada após alegar “ter sido roubada” por uma quarta envolvida.

A licença de Mara, contudo, foi em um momento oportuno à gestão Casares. Aconteceu um dia depois da aprovação do orçamento são-paulino para 2026, na qual ela votou aprovando as contas previstas pelo ex-marido.

Apesar de licenciada agora, Mara continuará sendo investigada pelo caso em duas frentes.

Na primeira, ela será alvo de inquérito policial instaurado a mando do Ministério Público Estadual de São Paulo.

O promotor José Reinaldo Guimarães Carneiro, da Comissão de Turismo e Desporto do MP-SP, viu indícios claros de crimes que envolvem, sim, o São Paulo e não apenas na relação de consumo entre as outras partes envolvidas.

“O primeiro crime é corrupção privada do esporte, que é um crime previsto na nova Lei Geral do Esporte, em vigor desde 2023. Esse crime, na verdade, pressupõe a manipulação de interesses privados em detrimento do patrimônio do clube, das agremiações”, disse Carneiro.

“E um segundo crime, que também é muito grave, é o de coação no curso do processo. Porque você ligar para uma pessoa e intimidar para que ela retire um processo sob pena de que as coisas ganhem repercussões, como sugerem as gravações, é um indicativo de crime”, completou o promotor.

A sugestão do Ministério Público é que sejam ouvidos os três envolvidos no áudio (Douglas Schwartzmann, Mara Casares e a denunciante) e todos os citados, inclusive Marcio Carlomagno, superintendente geral do São Paulo.

“Todo o dinheiro de uma agremiação arrecadado, seja em praça esportiva em razão do futebol ou de outra atividade esportiva tem que reverter para o clube. E não para favorecimento de interesse privado de quem deveria gerir o clube. A polícia vai tomar os próximos passos”, disse.

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